“EXCURSUS” E “GLOSAS” (NEO) PITAGÓRICAS – por Alexandre Teixeira Mendes

“EXCURSUS” E “GLOSAS” (NEO)PITAGÓRICAS

 – Trans (e) figuração e geometria secreta em António Telmo e Lima de Freitas

Pergunta – O que é a Ilha dos Bem-Aventurados?
Resposta – É o sol e é a lua.
P – O que é o Oráculo de Delfos?
R –  É a Tetractys.
P – O que é a Harmonia?
R – É o canto das Sereias.

François Millepierres, Pythagore, Fills D`Appollon, Gallimard, 1959, 119.

1.1. O pitagorismo de António Telmo (1927-2010) e Lima de Freitas (1927-1998) merecem bem uma meditação prolongada. Ora, precisamente o que surpreende – à luz da doutrina pitagórica – é a nobilíssima clarividência hermética de ambos e a (in) excedível valoração da mística e ocultismo do número e a proporção áurea. Supõe a liturgia algorítmica e a “golden ratio”. O nosso próprio interesse – proeminente – pela ciência «acroamática» ou esotérica provém, afinal, aparentemente ou rigorosamente falando, das reflexões-tipo sobre os conceitos-chave de transcendência e de realidade absoluta (que chamamos “o divino”). Quando comparamos, no conjunto, as reflexões pitagóricas de António Telmo e de Lima de Freitas, verificamos que ambos se referem à descoberta da estética da sectio aurea e que comentaram pormenorizadamente a década que é a natureza essencial de todo número – uma mónada de no mínimo 10. É interessante notar que Teofrasto – filósofo grego da escola peripatética que escreveu no século IV a.C. as “Doutrinas dos Filósofos da Natureza” (Phusikon Doxai) –  apresenta-nos uma ideia pitagórica bastante interessante – que o número ideal não está necessariamente sujeito a uma progressão sequencial ou causal de um a dez, mas é, antes, uma unidade com dez qualidades essenciais e potenciais, simultaneamente presentes na Década ou Tetraktys (eis porque pode representar, porventura, tanto uma unidade mínima quanto uma maximalidade em dez). Após ter posto em relevo, no início, as minúcias do hermetismo –  de que um dos aspectos primordiais é a kabbalah –  não é irrelevante a atenção –  (des) concertante  – sem alarde – destes nossos autores às “vias” de iluminação e realização espiritual do ser humano. Tratou-se, nos casos, ainda de um aprofundar dos estudos sobre a  kabbalah teórica (maasé bereshit) cujo alcance se estende desde a concepção do infinito até o mundo físico de coisas e acontecimentos que experimentamos como independentes e separados, passando pelas diferentes configurações da “divindade”, a “Árvore da Vida”, os mundos e seus habitantes, as almas humanas e seu destino, a semântica do alfabeto hebraico, e um longo etecetera. De facto, esse é o significado profundo da palavra kabbalah, que provêm da raiz hebraica, QBL, da qual deriva o verbo “lecabel”, receber. Kabbalah significa recepção. Não é assim surpreendente que, do acervo das ideias dos autores de “História Secreta de Portugal” (Vega, Lisboa, 1977) e de “Pintar o sete – Ensaios sobre Almada Negreiros, o pitagorismo e a gemetria sagrada” (INCM, Lisboa, 1990)  façam parte acentuada – desde o início –  os escritos da kabbalah (adcionando a quota-parte do conjunto das doutrinas esotéricas e místicas judaicas). É lícito, entretanto, mencionar o método de técnica oculta da kabbalah que professa a revelação central do sentido oculto do divino? Continuar a ler ““EXCURSUS” E “GLOSAS” (NEO) PITAGÓRICAS – por Alexandre Teixeira Mendes”

ANTÓNIO TELMO OU RAFAEL SANZIO E A PINTURA DO (IN) EXPLÍCITO – por Alexandre Teixeira Mendes

A filosofia e os seus nexos latentes e não – ditos

Rafael Sanzio

Hesitar-se-á em admitir a amplitude alusiva-metafórica, simbólico-mística ou supra-histórica de “A Escola de Atenas” de Rafael Sanzio (1483 – 1520)? Já que o afresco, tal como nós o conhecemos, não cessa de interdizer (nos) ou apresentar (nos) visual e pictoricamente uma actividade intelectual – sintomaticamente –  a filosofia. Como, pois, intérprete da alegoria – ou seja emerso nas “projecções” das práticas vivas dos filósofos reais – livres – persistindo em se conformar ao delineado significado – secular –  da “visio comprehensionis”?   Este fresco – de 440 x 770 cm – que ocupa uma das paredes do que foi a biblioteca e escritório do Papa Júlio II – actualmente a Câmara da Assinatura do Palácio do Vaticano – projecta (aparentemente) –  com a complexidade de uma geometria prevalente e (precisemo-lo também) de um simbolismo –  na confluência mitológica, histórica e alegórica. E sempre se há-de avaliar os correlativos da representação, é à sua maneira a doutrina definida – segundo Edgar Wind de Art and Anarchy – por Pico de la Mirandola como Concordantia Platonis et Aristotelis – ressoa – segundo as aparências e as maneiras de ver renascentistas  –  com registros distantes, mas convergentes: a imaginação matemática e a história da circulação de livros e a instrução em mesmidade (co-formação), a magia naturalis, as controvérsias literárias e a teoria dos intervalos musicais, a epigrafia e o fascínio (transcendente) pelos hieróglifos e emblemas, a doxografia antiga e a análise da ética aristotélica, as biografias de estudiosos humanistas e as concepções cosmológicas (juízos-prévios) no alvorecer coperniciano. Continuar a ler “ANTÓNIO TELMO OU RAFAEL SANZIO E A PINTURA DO (IN) EXPLÍCITO – por Alexandre Teixeira Mendes”

O INVISÍVEL E O ABSOLUTO EM GUERRA JUNQUEIRO – por Alexandre Teixeira Mendes

O INVISÍVEL E O ABSOLUTO EM GUERRA JUNQUEIRO

– Sobre a edição de Joaquim Domingues de Escritos Espirituais

JUNQUEIRO, GUERRA (2025) ENSAIOS ESPIRITUAIS.

Muitas são as razões que tornam compreensível a organização e edição por Joaquim Domingues de Guerra Junqueiro Ensaios Espirituais – Notas à margem de uma filosofia, 2025. Graças à compilação de escritos inéditos do autor da Velhice do Padre Eterno – que datam de 1890-1904 – e textos afins – mas congeminações esboçadas que são simultaneamente anotações provisórias ou imperfeitas – embrionárias – de significação (in) consistente – permitem-nos hoje apreender melhor o seu percurso metafísico-espiritual e em que o sagrado (“tremendum”) e o divino ou a mística – a ágape – afiguram-se como temas centrais – subjacentes – da sua doutrina. Será possível compreender a sua obra – especulativa a ajuntar à poesia e até ao fim da vida – como o corolário “plenificante” de um processo intelectual e interior (autocontraditório) – do tipo subjectivo-existencial ou procedimental heterodoxo? Parece-nos, portanto, que o seu ultravoltaireanismo ou o vítor-hugismo na sua juventude não é menos importante que o franciscanismo final vazada numa cosmovisão “orante”. Não pretendemos discutir aqui as influências culturais – como ponto de passagem – o ser-em ou estar-em – que se revestiram de carácter episódico ou ocasional e que lhe serviram de modelo para o pensamento e para a acção. A ideologia do progressismo modernizante ou conservador – republicano – liberal-democrático – não pode ser dissociado do panfletarismo discursivo-poético – arbitrário – benéfico ou maléfico – muito corrente no seu tempo – à altura da história e da imediatidade revolucionária – plásticamente presente nos seus versos – sendo necessário ou desejável questionar nessa conexão os leitmotiv – mas, antes, chamar a atenção para o discurso filosófico – em seus próprios termos – na convicção da centralidade de uma fé religiosa ou filosófica – da ética ou de um universalismo moral judaico-cristão – insistindo, por exemplo, no amor do próximo e da natureza e, portanto, na continuidade de uma atenção ao amor divino e gravitação em torno de Emanuel (que traduzido significa “Deus connosco” Mt. 1:23). Como quer que se descreva o vértice da síntese junqueiriana privilegiada – poetizada – une-se, outrossim, a um pendor religioso e espiritual – até aos seus últimos redutos – converte-se estruturalmente num hino querigmático (categórico-soteriológico) ou num dizer ou numa escrita paraclética (ver a introdução de J. Pinharanda Gomes “A Oração Cristo-Cósmica de Guerra Junqueiro”, in Guerra Junqueiro, Oração ao Pão. Oração à Luz (Lello ed., 1997). Mas na poética de Guerra Junqueiro – tão digna de substância metafísica – convivem (explicitamente) as retóricas radicais e as ideias contrárias e contraditórias. Na predileção das compulsões estético-literárias fundacionais ou consubstanciais ao anti-clericalismo – temático-epocal – cristalizadas em alguns dos seus poemas maiores – e inerente às definições doutrinais e outras fórmulas conceptuais ao modo de Renan e de toda a literatura francesa do século XIX – na paternidade das revoluções e da propaganda – mostra-se curiosamente – e se fortalece – na sua fase final – enquanto auto-exibição do absoluto – a cristologia. Continuar a ler “O INVISÍVEL E O ABSOLUTO EM GUERRA JUNQUEIRO – por Alexandre Teixeira Mendes”