Da Lassidão à Mansuetude
– Dois Umbrais do Caminho para a Sabedoria
Há dias, revi o documentário disponível no Youtube sobre Byung-Chul Han — aquele filósofo coreano que, com a lucidez de quem lê os sintomas da alma contemporânea como um clínico do espírito, descreveu a nossa era não como a da repressão, mas do cansaço. Não do cansaço físico, mas do cansaço que nasce da obrigação constante de nos superarmos, de otimizarmos cada instante, de transformarmos a vida numa performance ininterrupta de produtividade e visibilidade.
O seu pequeno livro Sociedade do Cansaço — que recomendo com urgência a quem sente o peso invisível do “ter de ser sempre mais” — é um diagnóstico cirúrgico da nossa exaustão psíquica: vivemos não sob o jugo do outro, mas sob a tirania de nós mesmos. Ao fechar o livro e ao terminar o vídeo, olhei à volta: nas ruas, nas filas do supermercado, nas videochamadas, nos próprios olhos dos que amo — vejo rostos esvaziados. Não tristes, nem sequer deprimidos, mas cansados: apáticos, crispados, nervosos, por vezes furiosos, como se a raiva fosse o último sopro antes do colapso. É nesse cenário de fadiga existencial que a sabedoria antiga — tão contracorrente como necessária — nos chama de volta a dois estados aparentemente passivos, mas profundamente revolucionários: a lassidão e a mansuetude.
Hoje,num mndo acelerado até à exaustão, fala-se muito de produtividade, de resiliência, de força. Pouco se fala da lassidão — não aquela da preguiça ou do abandono, mas a lassidão que surge “no fim dos atos de uma vida mecânica”, como escreveu Albert Camus em “O Mito de Sísifo” (1942). É nesse esgotamento do automático, nessa interrupção do gesto repetido, que algo de novo pode nascer: a consciência. Não a consciência moral, mas a consciência existencial — o primeiro passo do despertar filosófico, urgente, imprescindível.
Camus, ao descrever a lassidão como o momento em que o homem põe em causa os seus gestos, não está a convidar-nos à inércia, mas ao contrário: a um despertar. Quando a rotina se esvazia de sentido, quando a máquina social deixa de nos reconhecer como peças úteis, surge a pergunta mais antiga e mais urgente: para que serve tudo isto? É aí, nesse vazio momentâneo, que a filosofia começa. Montaigne diz nos Ensaios que “não é o número dos livros que nos faz sábios, mas a forma como deles nos apropriamos” — uma ideia que, em linguagem contemporânea, poderíamos traduzir como: o saber não reside na quantidade do que se lê, mas na qualidade da atenção com que se lê. A lassidão permite essa atenção. Ela cria o silêncio necessário para ouvir a própria alma.
Mas a consciência, por si só, não basta. Muitos acordam para o absurdo do mundo e respondem com cólera, cinismo, violência ou fuga. É então que entra, como antídoto e como destino, a mansuetude. Não a fraqueza, não a submissão, mas aquela força serena de quem sabe que não precisa de impor a verdade para a possuir. A mansuetude é a virtude do espírito que já confrontou o abismo e optou por não lhe devolver o grito.
Espinosa escreve na Ética que aquele que vive guiado pela razão não odeia, não despreza, não inveja, não se ira, nem se regozija com o sofrimento alheio — porque compreende que os outros agem segundo as mesmas leis naturais que o regem a si próprio. Manso não é o covarde, mas aquele que domina as paixões tristes, que se liberta da tirania do rancor. A mansuetude, em Espinosa, é fruto do conhecimento — é o que resta quando se compreende que o outro é tão necessitado e confuso como nós.
E se a lassidão nos faz parar, a mansuetude ensina-nos a caminhar de novo — agora com outro ritmo, outro olhar. É essa a sabedoria que não se ostenta, mas se vive: a que coloca os outros antes de si não por submissão, mas por clareza; a que não precisa de dominar para existir, porque já encontrou a sua quietude interior. A sabedoria verdadeira não grita; escuta. Não julga; compreende.
Na tradição dos Padres do Deserto, a mansuetude era chamada praotēs — termo grego que os Padres viam como a “raiz de todas as virtudes”. Era o estado de humildade interior que tornava possível a compaixão. Não era a negação da força, mas a sua transmutação em cuidado. Essa mesma ideia ecoa em Simone Weil, que escreveu em “La Pesanteur et la Grâce” (1947): “A atenção é a forma mais rara e mais pura de generosidade.” A lassidão permite a atenção; a mansuetude é a atenção em ação.
Vivemos uma época de urgência simulada, onde até o silêncio é visto como uma falha de desempenho. Mas talvez o verdadeiro crescimento humano exija, de vez em quando, parar de fazer para começar a ser. E, depois, agir não com violência, mas com brandura consciente — com aquela mansuetude que não se curva ao mundo, mas o transforma, gota a gota, como a água fura a pedra não com força, mas com constância serena.
Por isso, honremos a lassidão como portal. E cultivemos a mansuetude como destino. Porque, como escreveu Rilke nas “Cartas a um Jovem Poeta”: “Tenha paciência com tudo o que está por resolver no seu coração. Tente amar as próprias perguntas.”
É nas perguntas — não nas respostas — que o caminho para a sabedoria se desenha. E é na quietude da lassidão, guiada pela mansuetude, que encontramos a coragem de caminhar sem certezas, mas com dignidade.
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José Paulo Santos nasceu em 1969. Viajou muito e viveu em vários países como França, Brasil, Cabo Verde, Guiné Equatorial, Tunísia expandindo a Língua e Cultura Portuguesas. Licenciou-se emEnsino de Português e Francês (agora em LSVLD). Escreve e publica Poesia. É cronista e dedica-se à Filosofia, à Psicologia e às preocupações humanas. É formador do IEFP.


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