
A filosofia e os seus nexos latentes e não – ditos

Hesitar-se-á em admitir a amplitude alusiva-metafórica, simbólico-mística ou supra-histórica de “A Escola de Atenas” de Rafael Sanzio (1483 – 1520)? Já que o afresco, tal como nós o conhecemos, não cessa de interdizer (nos) ou apresentar (nos) visual e pictoricamente uma actividade intelectual – sintomaticamente – a filosofia. Como, pois, intérprete da alegoria – ou seja emerso nas “projecções” das práticas vivas dos filósofos reais – livres – persistindo em se conformar ao delineado significado – secular – da “visio comprehensionis”? Este fresco – de 440 x 770 cm – que ocupa uma das paredes do que foi a biblioteca e escritório do Papa Júlio II – actualmente a Câmara da Assinatura do Palácio do Vaticano – projecta (aparentemente) – com a complexidade de uma geometria prevalente e (precisemo-lo também) de um simbolismo – na confluência mitológica, histórica e alegórica. E sempre se há-de avaliar os correlativos da representação, é à sua maneira a doutrina definida – segundo Edgar Wind de Art and Anarchy – por Pico de la Mirandola como Concordantia Platonis et Aristotelis – ressoa – segundo as aparências e as maneiras de ver renascentistas – com registros distantes, mas convergentes: a imaginação matemática e a história da circulação de livros e a instrução em mesmidade (co-formação), a magia naturalis, as controvérsias literárias e a teoria dos intervalos musicais, a epigrafia e o fascínio (transcendente) pelos hieróglifos e emblemas, a doxografia antiga e a análise da ética aristotélica, as biografias de estudiosos humanistas e as concepções cosmológicas (juízos-prévios) no alvorecer coperniciano.

Sólidos regulares (ou poliedros)
H. Gombrich havia admitido ser – o fundo de Rafael e o fresco da parede – uma continuação das alegorias, tradições medievais no referente à representação per essentiam da filosofia e as sete artes liberais (Symbolic Images: Studies in the Art of the Renaissance, Londres, 1972, pp. 85-101). Pois o caso é que poderia estar implícita uma genuína lição da pureza metafísica da arte? Do reivindicar uma estética da palavra e imagem que necessita vir a ser esclarecida? O espaço de uma (in) completude do sentido (des) articulada? No que refere à pintura cifrada, a sóbria ebrietas, a imago ignota? Torna-se apropriado, portanto, que o filósofo de “História Secreta de Portugal” – António Telmo – na aceitabilidade de uma proposição originária das representações plásticas – ouse refletir sobre a fonte textual de Rafael Sanzio – como se aprestasse a descobrir algo inédito – o “Protágoras” platónico – interpelado – uma vez estabelecido que este diálogo narrativo – à semelhança do “Lísis”, do “Eutidemo”, do “Cármides”, etc. – gira em torno da natureza da virtude e da sua relação com a ciência, isto é, a indagação ética já abordada com perspicácia por Sócrates em outros diálogos. Todavia, ainda em 1989, o “Timeu” é citado por António Telmo para lembrar-nos que Platão tenta explicar a estrutura da matéria usando, por assim dizer, os cinco sólidos regulares (ou poliedros), que já tinham sido investigados pelos pitagóricos e inteiramente por Teeteto. Eles são os únicos sólidos existentes nos quais todas as faces são idênticas e equiláteras, e cada um dos sólidos pode ser circunscrito numa esfera (com todos os seus vértices encostando na esfera). Não parece inútil referir que os sólidos platônicos são o tetraedro (com quatro faces triangulares), o cubo (com seis faces quadradas), o octaedro (com oito faces triangulares), o dodecaedro (com doze faces pentagonais) e o icosaedro (com vinte faces triangulares). Acontece que o autor de “Timeu” combinou as ideias de Empédocles (c. 490-430 a.C.), de que os quatro elementos básicos da matéria são terra, água, ar e fogo, com a teoria “atómica” da matéria (a existência de partículas indivisíveis) de Demócrito de Abdera (c. 460 a.C.-370 a.C.). Convém anotar aqui que Platão tinha um grande interesse pelas propriedades dos números e das figuras geométricas. Em “Leis”, por exemplo, ele sugere que o número ideal de cidadãos num estado é de 5.040 pois (a) é o produto de 12, 20 e 21; (b) a duodécima parte do número pode ainda ser dividida por 12; (c) tem 59 divisores, incluindo todos os inteiros entre 1 e 12 (exceto o 11, mas 5.038, que é muito próximo, é divisível por 11). A escolha desse número e suas propriedades permitiram a Platão desenvolver sua visão socioeconômica. Por exemplo, a terra do estado é dividida em 5040 lotes, com 420 desses lotes constituindo o território de cada uma das doze “tribos”. Outro número frequentemente associado a Platão é precisamente o 216. Está claro, porém, que menciona-nos este número em “A República“ – num trecho obscuro – e que é ele mesmo igual a 6 ao cubo, sendo 6 um dos números que representam casamento (pois é o produto do 2 feminino e do 3 masculino). Lembremo-nos que Platão foi discípulo dos pitagóricos, também estava a par do fato de que a soma dos cubos dos lados do famoso triângulo pitagórico 3 – 4 – 5 é igual a 216.
Enigma (pre) definido
Da obra de António Telmo – ainda que lida fragmentariamente – que se exprime numa exigência dum apalavramento (in) habitual – podem deduzir-se demandas supra-significantes e diferenciadas, por exemplo, na atenção à kabbalah, os mundos metafísicos, a questão do mal e da linguagem e, por conseguinte, o messianismo, o neo-pitagorismo ou, mais exactamente, a geometria sagrada, Platão e Aristóteles, etc. etc. Certamente um esforço crítico intentando novas sínteses hermenêuticas e interpretativas – que animam o investigador – albergam e promovem a “theoria” da “história” secreta. É digno de breve menção a sua filiação “pneumatológica” e, por certo, o jorrar de um pensar orientalista – da hermética ratio – nos recursos de uma “arqui-escrita” e da experiência “arcana”. E, então, somos forçados a reconhecer no seu trabalho – aplicado à letra – a “propensão” ou “inclinação” heterodoxa – seguindo os próprios ditames marranos e de permanência ou filiação (proto) judaica. Por cima de uma geração marcada pelo positivismo, reata o contacto com a Escola Portuense. É a Sampaio Bruno e a Álvaro Ribeiro que António Telmo confere permuta existencial e permuta metafísica – apoia-se numa meditação, todavia, em profundidade – deliberadamente – sobre a portugalidade e a sua fisionomia própria – singularidade e complexidade sacral e simbólica. É então, igualmente, que surge a sua atenção à lógica representativa de “A Escola de Atenas”. Seja ou não seja fácil entender integralmente este mural – na perspectiva dos seus modos de composição – significa igualmente lê-lo como um enigma – (pre) definido – sob o influxo da representação de filósofos (confluência cultual) e à mensagem filosófica (o aporte grego especulativo), como o mais alto ideal, um essencialismo? Limitamo-nos à constância de uma paciente (des) leitura – diante da recôndita e misteriosa investigação – vemo-nos obrigados a esclarecer o significado em si – da compulsiva demanda – (in) discernível – da formulação gnóstica-alquímica? Podemos perguntar-nos o que Rafael Sanzio nos quer “dizer” – aclarar, desaclarar – no seu afresco – o que, oficialmente, dissimula – é explicado através do próprio par – Platão e Aristóteles – as personagens principais – rivais ou complementares – assumem, por si só, um efeito orientador- metafisicamente indistinguíveis – a esquadrinhar? Podemos aperceber-nos da irrupção do (in) explícito? Como poderia, indagava António Telmo, haver alguma espécie de intuitus originarius? Um mural cuja “excepcionalidade” artística é, porém, expressão duma elaboração esquemática ou de uma síntese inteligível? Eventualmente nas fixações-simulacros da sua “projectabilidade” (num campo delimitado de predicados e de postulados da imaginação criadora – negligenciável)?
Sofia [Σοφία rediviva]
O belíssimo afresco de Rafael foi para António Telmo algo parecido como uma obsessão – oportunamente – espiritual – na economia psíquica -, e tal obsessão arquetípica – repetidamente – no seu perfil estético e existencial – é, de facto, uma supra-interiorização. De onde provém? Dir-se-á que explica-se num único plano – neopitagórico – perfeitamente de acordo com o seu (cripto) kabbalismo – clarificado e absolutizante – ofuscadamente visionário (supôs também – necessariamente – a atenção à scientia cabalae e o Zohar, a meditação em torno do adam kadmon ou da shekhiná – presença divina feminina – o tzimtzum ou “retraimento” (de Deus) de Lúria, a numerologia ocultista, etc. etc.). Entenda-se: a proclamação pura e teoria pura – do (in) circunscrito – através dos vórtices reflexionantes incorporados ao divino (ein-sof e ayin, presença total e ausência total). Onde se ajuntam imediatamente as abordagens secretas, ou ainda,- o que se mostra e se esconde – diante do (in) verossímil – num glossário (in) especificado – pleno de “deslocamentos” temáticos – de exclusividade e completude – no saber teosófico e místico? E aí reside o ponto fundamental. Como caso típico da perspectiva metafísica concebida sobre o que está em jogo quanto à reivindicação da quintessência da Sofia [Σοφία rediviva] – que associamos ao afresco de parede de Rafael, Sanzio da Urbino Rafael, “A Escola de Atenas” (1509-10) – e como uma continuação directa das tradições medievais de representações alegóricas da filosofia e das sete artes liberais – definidas e circunscritas – vem citado na reflexão concludente – como e quando advém do filosofar interrogante de António Telmo. Parte-se de um equacionamento – alegórico – do cânone da tradição reflexiva em toda a sua amplitude – de um encadeamento subterrâneo – dos “entrelacs” da saturação e da unificação esotérica – de um processus fantasmático – do (in) apresentável? Que requer a articulada ou anotada (i) legibilidade – o (sobre) nomear ou a (sobre) reflexão evemencial? Permanece válida a relevância deste afresco – pintado há quase cinco séculos – estritamente como a sinalização das representações alegóricas da filosofia – dos seus protagonistas – registro e das escolas antitéticas ou (in) conciliáveis. Contém, resolutamente, sessenta figuras individualizadas ou (in) tangíveis – micro) presenças – padrão que (re) descobrimos – indisfarçáveis, mas transpostas – padronizados? Trata-se, confessadamente, de visualizar simultaneamente ou proceder à projecção de figuras manifestas ou de figuras não manifestas – fictícias – sob a actividade transitiva de uma (des) leitura – e na vinculação a uma comunidade de lugar e de cisão e projecção? Ora bem, reciprocidades ou confrontos exultantes – encenações, por exemplo, que ganham significados específicos – criam as condições da possibilidade de um juízo pictural – explicativo – da inferência lógica – esotérica? Constata-se que – nessa amplidão de figuras metafísicas – não existe só o par simétrico – Platão e Aristóteles – postos no centro do afresco – para codificar ou esquadrinhar a (re) formulação da inscrição do logos – dado desde a origem – o reino transparente da ideia – apoteose da palavra, do discurso, da razão? Pares paradoxais e cujos sentidos contrastantes evocam a contraposição bio unívoca – Platão e Aristóteles – tal como na contemporaneidade Heidegger e Wittgenstein – que ilustram exaustivamente dois modos de filosofar – divergente naquilo mesmo que interpretam – para confluírem precisamente numa filosofia da linguagem. Por outras palavras, são as imagens e os emblemas da conceituação filosófica, decisivamente, alimentando a controvérsia e os obscurecimentos da questão do sentido? Mostram-se – nesse desdobramento – os grossos fólios de “Timeu” e “Ética a Nicómaco”. É necessário, além disso, atentar nas únicas figuras que se podem assinalar com certeza aparecem em ordem cronológica da esquerda à direita: Pitágoras, Sócrates, Platão, Aristóteles e Diógenes, Ptolomeu e Rafael.
Leitura transversal
É lícito pressupor exclusivamente uma “leitura” transversal do mural? Assente, pois, nos contrapontos visuais? Pois bem: nas articulações – que estruturam o arcabouço arquitetónico da cena – a plataforma dos “personagens” distintos – ou nas “preferências” da representação – (in) verosímil? E onde é preciso considerar – paralelamente às estátuas de Apolo e Minerva – as irredutíveis esculturas pintadas – colocadas nos nichos laterais do grande arco central – que (sobre) determinam a unidade minuciosa da obra – presentificarão sensível e seu estranho poder? Partindo, primeiramente, dos significados literais, alegóricos e astrológicos – que nos parecem mais significativos – presentes nos compêndios clássicos – e na qual uma assembleia de eruditos se (re) colocam fora do tempo? E, no entanto, de facto, a focalização do círculo da sabedoria – a pesquisa incessante – formalismos da arte que nos interpela (cifra, revelação, speculum)? Na sua delimitação – onde não se excluem, sem dúvida, as simetrias e os acentos visuais, as modulações e as correspondências – o grande atrativo estético do mural de Rafael Sanzio – dada a elegância e a vivacidade das cores e das formas – encontra-se na tensão com o desafio cognitivo que as figuras e a actividade dramática parecem apresentar. Parece-nos, pois, importante decifrar, no mais alto grau, o sentido da arte de Rafael – superlativamente genuína – qual seja verdadeiramente a determinação de uma imagem respeitável que se incorporou decisivamente no nosso inconsciente visual. Como situar integralmente a beleza do afresco – na perspectiva dos seus modos de composição – significa igualmente lê-lo como um enigma – (pre) definido – e sob o influxo da representação de filósofos e à mensagem filosófica, como o mais alto ideal, um essencialismo?
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Alexandre Teixeira Mendes, (Refojos, Cabeceiras de Basto, 1959) – Estudou nas Universidades do Porto e Católica de Braga. É autor de vários livros de poesia e ensaios de teor literário-poético e notações de encalço filosófico. Foi jornalista e é membro da Society for Crypto-Judaic Studies e do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira. Os seus trabalhos incidem sobre a poética e a filosofia portuguesa, o pathos da visão esotérica e do “enjeu” marrano português. No prelo encontra-se o livro Do parco e do inexcedido – notações cripto philo sóficas (Edições Sem Nome) e um ensaio consagrado a António Telmo.


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