POEMAS (FORA DO TEMPO) – por Carla Pereira

© mariam sitchinava

 

Conversão

é no escuro deste dia que vens?
tornei o meu quarto no absoluto
pois sei que é assim que te convém
dispostos à tua medida
paredes, tapetes e cama
e os candeeiros também
como queres que te espere?
sentada? ou preferes encontrar-me deitada?
e os braços? cruzados a simular certezas
ou caídos denunciando fragilidades?
seja como for, farás com que estremeça
com que me perca
com que me engula no tempo
por favor, deixa cair uma das tuas lágrimas sobre a minha pele
ou então, se ainda tiveres sangue dentro do teu peito gelado,
faz com que me entre directamente na boca
haverá grandeza maior do que te sentir pulsando nas minhas entranhas?
deram conta no mármore que morreste
tão ignorantes os simples sem desejos nem pensamentos
nada me importa que sejas sombra
a minha reverência basta para te agarrar
ouço-te, mesmo que me fales muito baixinho
e agradeço a companhia da tua mão parada
sem ti, nada mais do que uma pedra
inútil e deformada
pontapeada e esquecida
anda, anda       anda ainda hoje

já te pressinto debaixo da minha cama

 ♣♣♣

 

Ultraje do tempo

tivesse eu uma espada
e uma coroa de ouro
abraçasse eu os sonhos
e o leme do navio
compreendesse eu os segredos
e as lágrimas nos rostos
carregasse eu o sémen da vida
e os pés em ferida
apagasse eu as sombras
e os gritos desamparados
fechasse eu o cansaço dos olhos
e as fendas da terra
pusesse eu no céu as aves
e o silêncio no ar
pudesse eu ser gigante
e as mãos estendidas
suportasse eu o mundo inteiro e
tornaria o meu peito num esplendoroso
jardim e os meus olhos num sereno mar
mas sou por enquanto humana
e tudo o que posso agora é lutar

♦♦♦

Carla Pereira nasceu em Braga em 1983. Encantou-se cedo pelas possibilidades guardadas nos espaços do mundo, pelo que lhe é impossível existir entregando-se em definitivo. Arrebatam-na as composições de Verdi, os versos de Cesariny, as ideias de Aristóteles e os movimentos aperfeiçoados nos corpos que se esforçam por resistir ao tempo.