MEMÓRIA, MAPA E MOVIMENTO – por Jaime Vaz Brasil

A aventura humana inclui movimento. Da árvore ao solo, o começo.  A partir daí, o chão e os passos. A sola no solo deixa pegadas e rastros. Inventamos mapas, bússolas, criamos planos e projetos. As pegadas formam uma parte da história: a que deixa registros, serve de lembrança e também de aviso para alguma correção de rumo no futuro. A outra parte é a história viva que nos acompanha, na bagagem de dentro, para dar sentido e razão ao que planejamos. Essa história individual, muitas vezes invisível, também podemos chamar de memória. Nosso trajeto depende de uma consistente repetição dos passos. Podemos escolher o rumo e a constância de cada um deles. E, não menos importante, podemos sobretudo eleger a velocidade da jornada.

Somos a soma das nossas memórias. O processo de adquirir, formar, conservar e evocar, possui mecanismos complexos.  Envolvem o cérebro além dos neurônios, neurotransmissores e substâncias que operam toda a dinâmica.

Somos regidos, queiramos ou não, em boa parte pelo passado. Nossa história é composta pelos fatos e pela forma como foram (ou não) armazenados. Mesmo o que não está na memória propriamente dita, como assim concebemos. As decisões que iremos tomar, o norte que escolheremos para encaminhar a vida, tudo que pensamos e agimos depende basicamente deste acúmulo.

Existem mecanismos para que o cérebro classifique de modo instantâneo quais acontecências ou informações devem ser preservadas e quais devem ser passageiras. Estas últimas são armazenadas apenas pelo tempo da necessidade imediata, e compõem a chamada “memória de trabalho”. O que vai nos formatar como indivíduos únicos e irrepetíveis é a memória propriamente dita, em sua instância mais profunda e decisiva, no singular e no plural.

A memória depende de vários fatores, pois envolve circunstâncias físicas, emocionais e situacionais, além de possuir variáveis que muitas vezes nem imaginamos que estão presentes. Mas, se precisássemos citar apenas dois fatores totalmente envolvidos no processo, seriam: atenção e concentração. Apenas se estas duas capacidades estiverem alinhadas e “falando a mesma língua”, conseguiremos o passo seguinte. Ou seja, o aprendizado através da leitura ou o aprendizado no sentido amplo, através de todos os episódios da vida, depende de estarmos vivendo a situação de “corpo e alma”. Presentes no que estamos realizando, vivendo no gerúndio, com a necessária entrega. Não há como fugir da constatação que memorizamos mais, melhor e mais profundamente o que nos tocou com mais intensidade. Parte disso não depende de nós: quando os fatos (ou repercussões) não aconteceram por nossa prévia ingerência sobre eles. Mas em todas as outras situações, onde deliberamos participar, dependemos diretamente de uma cumplicidade entre nós e nossos projetos. Podemos chamar essa cumplicidade de motivação. O termo nos chega do latim através da raiz motus, motio, motivus, com significado de movimento.

 Se o “motivo para a ação” atende nosso consciente e nosso inconsciente, se nossas duas instâncias estão alinhadas, aumentamos muito a chance de obter o fôlego emocional para seguir adiante na ideia que nos levou a tomar as decisões iniciais, sejam elas pequenas ou mais ambiciosas. O resultado em si depende desse alinhamento para que a motivação nos coloque em estado de maratona. Mas temos nesta corrida aqueles dois fatores implicados na construção do que quer que seja: atenção e concentração. Estes, não estando a serviço da memória, nos levarão a correr 100 metros rasos. No máximo. Não estarão nos levando a construir nada que possa ser consistente. Nossa memória, queiramos ou não, depende basicamente de entrega verdadeira. Depende do grau de atenção que emprestamos a cada episódio que vai compor nossa história, que vai construir o que somos, nossas memórias plurais que nos constroem e escrevem nossa história.

A escrita, talvez nosso mais importante marco civilizatório, surge por volta de 2.300 a.C. Entre 360 e 370 a.C., em Fedro (Platão), Sócrates narra uma história onde Thoth, o deus da escrita, apresenta sua invenção ao Rei Thamus, que se mostrou preocupado. Argumentou que as crianças se fiariam demasiado nela, e não mais se dariam ao trabalho de memorizar. Antes da escrita, era comum memorizar poemas equivalentes a 500 ou mais páginas: todo o conhecimento era transmitido oralmente, então havia a necessidade de memorizar. E necessidade é a maior das motivações, pois mora na casa dos instintos.

Vivemos uma época onde a tecnologia da informação provocou um marco tão impressionante quanto foi o da invenção da escrita. A escrita contribuiu instantaneamente para que todos os processos de aprendizado se realizassem melhor e mais rápido. O ganho foi gigantesco e o efeito colateral ausente ou desprezível. As ferramentas tecnológicas também oferecem ganhos imensuráveis, mas existe a possibilidade de alguns efeitos colaterais.

Vamos imaginar uma criança, atenta a todos os estímulos ao redor, como é o seu estado natural e desejável: se o número de estímulos está em uma proporção razoável entre percebê-los e tentar seu entendimento, temos um aprendizado através deste processo. Porém, se os estímulos são demasiados ou se possuem velocidades incompatíveis com nossa capacidade de elaborá-los, o cérebro não consegue o foco, a atenção e a consequente concentração para que possamos aproveitar o que está ao redor. Isso possivelmente explique os crescentes casos de crianças com transtornos de atenção quando iniciam a vida escolar. Mas esse efeito não aparece apenas nas crianças. Mesmo em adultos, que teoricamente já aprenderam a colocar sua atenção em uma coisa de cada vez, o fenômeno ocorre. Os estímulos em desproporção com nossa “capacidade de processamento” fazem com o que o cérebro fique viciado em descartar informações, e opere por períodos demasiados no modo “memória de trabalho”.

Se o tempo dedicado a cada atividade resultar pequeno e superficial, há grande possibilidade de causar desinvestimento e possível desistência logo nas primeiras dificuldades, nas primeiras situações onde se imponha algum trabalho de raciocínio ou perseverança.

O grande risco é que, a partir disso, nossa vida aconteça apenas naquela corrida dos 100 metros rasos. A vida é rasa quando podemos atender apenas instâncias breves e superficiais. É rasa quando impera a falta de paciência para pensar, executar e levar adiante nossos projetos. Aprender é apreender. Essa apreensão, independente do século que estejamos vivendo, possui as mesmas configurações para que se efetivem. (O barro que nos molda é o mesmo, independente do época em que estejamos vivendo.) O perigo, assim, é que surja uma desproporção entre os estímulos (informações instantâneas disponíveis) e a real capacidade de processá-las, entendê-las e aproveitá-las de fato.

Somos a soma das nossas memórias. Vivemos no gerúndio, somos regidos pelo que já vivemos e buscamos (ou deveríamos) executar a sequência de pequenas tarefas que formam nossos projetos maiores, nosso futuro em si. E devemos (ou deveríamos) passar adiante o legado. A evolução cultural da espécie precisa ser uma mistura de maratona com aquela corrida de passagem do bastão. Afinal, a memória não é o principal legado da nossa existência: ela é a nossa própria existência.

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Jaime Vaz Brasil é psiquiatra e escritor gaucho.  Possui diversos livros publicados, destacando-se Punhais do Minuano (1991), Caderno dos Espelhos (1993), Os Olhos de Borges (1997), Livro dos Amores (1999), Inventário de  Cronos (2002), Pandorga da  Lua (2006) e Clave de Sombra (2014). Recebeu  vários prêmios literários e em festivais de música (entre eles, o Prêmio Açorianos de Literatura e o Prêmio Felippe d’Oliveira). Alguns dos seus poemas foram musicados, e há dois livros com os poemas em CD: Os Olhos de Borges, musicado por vários compositores, e Pandorga da Lua, musicado por Ricardo Freire.