O MOSTEIRO. TESTEMUNHO – por Maria Toscano

 

Convento Corpus Chisti, V. N. Gaia

o Mosteiro. testemunho.

1.

de dentro de mim falo.

 

de dentro desta catacumba, outrora moira e afonsina, erguem-se os vapores de história mal catalogada.

reviram-se-me ainda as inscrições de guerreiros mortos que repousam, fundo, no íntimo de mim. no fundo do dentro do meu íntimo lembrar, o meu mais íntimo dentro.

ecos das batalhas de metais chispam-me as frestas, intacta ferida, no dentro de mim.

talvez mesmo ferrugens em excelentes arpões antropóides, em insolentes confrontos desde os medievais séculos de maturação.

é da idade média da minha vida que se trata: da minha vida desde então.

de tecelões familiares e de escritos manuscritos devotamente sob arcadas sagradas de fés mutantes.

os pecados puros, expostos ao gozo público da excomunhão. pecados libertadores das ameaças de cólera, pestes trazidas em barcos mediterrânicos, mare nostrum.

feridas de ganchos, âncoras, arpões.

ferroadas de abelhas tropicais.

enxames de línguas estranhas que imito e encerro, tenuemente — até o dicionário dos tempos no-las trazer corrigidas, em vernáculo.

enxames veniais. pecados veniais. ferrolhos mortais.

enxames de Inquisição: confessionários, aparatos de ferro e correntes manchados por sangues, portas fechadas, praça pública, pelourinho, portões à entrada da cidade.

fumos de existência ancestral confundidos com bruxedos e alquimias. barómetros dos tempos, inamovíveis.

caravelas do carrocel da expansão, de negro na pele e dentes lancinantes, no branco sem publicidade dentífrica.

do tempo final da medieval-idade: soalhos de terra vermelha ou barrenta, areais de azul chapado no mel em pó das praias distantes, longínquas.

distantes pecados longínquos. pecados de renascimentos.

lençóis de conquistas pintalgados, massacrados, despojados em colmo ou barros estranhos, barros mestiços, putos mestiços no crioulo mestiço.

pais-pardais de pardais ausentes. pardais. gaivotas.  ausentes mestiços.

filigranas exportadas e encalhadas num porto qualquer sem orla política. padrão de descoberta. gaivotas de políticas. conquistas.

miragens de terras que seriam deles, mas nunca, nunca o foram, porque des-cobertas só para eles.

antes deles, os próprios habitavam, antes.

imagens sagradas maculadas pelo poder de descobrir.

virgens negras angulosas e logo estropiadas pela mão estrangeira. longínquas virgens desfloradas. conquistadas. mal-amadas.

passeios com sal nos ares e coqueiros ou palmeiras descobertas, digo: conquistadas.

ares fortíssimos — de pudor — inatingíveis. ares descobertos, digo: conquistados. ares dos Mares, salgados e húmidos no bafo natural dos trópicos.

conquistados, digo: mal-amados.

miragens de guerreiros escabrosos, de outros curiosos indulgentes.

curiosos ternurentos enterrando-se amorosamente nessas enseadas, coxas de ar salgado.

falo dos curiosos bem-amados. conquistados pelo odor, a seiva, o leite de coco e corpos dementes. quentes curiosos amantes — bem-amados conquistados.

e falo ainda, e de novo, dos malditos guerreiros conquista-dores, destronando outros, os amantes, com arpões que hoje são ferrugem no meu túmulo de memórias.

benditos os guerreiros amantes, bem-amados. conquistados!

malvados conquistadores…

assim, de dentro de mim falo.

dum planisfério desenhado a conta-séculos, conta-marés, conta-fantasmas, marítimos. deuses. pelo medo a devir monstruosos, medonhos.

no meu íntimo mais íntimo repousam — conquistadores mal finados.

todas as poeiras dos tempos todos, levantam-se. e a cruz-feiticeira, e a Cruz-colonizadora.

e permanecem até hoje: tempo de tascas dos caracóis e dos líderes de opinião; tempo climatizado nos centros comerciais, gaiolas de alumínio e vidro; tempo paralelo às antenas paralelas, às antenas parabólicas. era cibernética, era digital.

antenas, cabos, nuvens.

permanecem.

no fundo dos túmulos rendilhados de estrelas, sereias, serpentes, cordões e brocados Manuelinos, nos túmulos menos brancos da pedra, não serena, mas paciente, que os acolhem: Guimarães, Viseu, Sagres, Belém, Olivença, Campo Maior.

não serena cor, menos branca, tal como os rostos deles, controversos nas heresias que praticavam. não da brancura de que os restos impolutos vão ficando — morte branca.

eles, de heresias crentes culpados, condenaram-se, condenou-os o tempo, a uma menos-brancura revolvida diariamente pelo remorso. a bafos de ódios dos conquistadores. amores adiados. desamores violados, obedientes ao deus do mau viver.

de dentro de mim falo.

ao lado deles, outros aí repousam. túmulos mui parecidos, transcendem, em tudo, a semelhança.

estes, os conquistados de que lembro agora mesmo as veias de marinheiro pulsantes, o bronze possante, dilatado em pupilas de amantes ternurentos.

2.

Suyshiamara balançava-se em frente ao mar.

chegava o seu barco branco, garrido no suor.

retorcia a trança, retorcia as ancas e os pezinhos.

era o barco do ouro. e do homem dos olhos — não como os dela, rasgados na tez dourada e na cinta vermelha — grandes!

até então, ninguém com uns olhos assim!

ela preparara-lhe o peixe cru e o Kimono preto, dourado e vermelho — preto como os olhos do barco branco, o homem dos olhos, e dos pés, grandes, Mestre Gil.

trazia estranhas coisas, pensava ela, e levava banalidades: sedas, cores, sabores…

o homem dos olhos grandes dizia-lhe que, na terra de onde vinha, ninguém as conhecia, àquelas coisas. que eram valiosas e preciosas. de tão longínquas. e raras. tanto mais preciosas quanto mais atraiçoadas por requebros de sustos e temporais.

Suyshiamara — Maria, para Gil — rasgava ainda mais os olhos no contágio com os lábios pouco sorridentes dele.

acabaria por vir com ele por causa desses olhos grandes. e dos cheiros estranhos da comida dele.

ah! como ela viria a amar aqueles cheiros exóticos! orégãos, as profusões de carnes molhadas, encaloradas, fortes! de uma outra força. Dissemelhantes das sopas, das massas e dos vegetais dela.

Obrigada. Lisboa. Portugal. Sim. Japonesa. primeiras palavras em expansão, da expansão do povo que ia também ficando prisioneiro dos outros.

do Oriente, respondia ela. de um Oriente que nunca, nunca mais a teria de volta.

era largo. brilhando nas águas, o branco das casas encarrapitadas nos morrozinhos — tão estranhos e exóticos, comparados com a sua terra! — o porto. Lisboa.

abria-se numa baía de caixotes empilhados, de barquitos e outras caravelas garridas e brancas, seguras. de agitados homenzinhos e mulherezinhas de diferentes cores estranhas. agitados: talvez, mas mais lentos, talvez por todos terem os olhos, como os pés, grandes.

no vento chegavam-lhe tais odores e o barulho dos pássaros, animais e gentes impossíveis, agitando-se sempre, nas chegadas. e cantando entoados quase quase a desafinar e, no fim, não: belos, contínuos, quase-fados.

o porto. Lisboa.

o mercado generoso cruzara mares, ferira (e também beijara) terras estranhas. de longínquas.

Suyshiamara rasgava os olhos rasgados, mais do que algum seu irmão poderia.

movimento, alarido: expansão. torvelinho inútil, pensava. sorria: descobrimento ao encontro de gentes que já — lá e cá — estavam. descobrir era o que Mestre Gil sabia fazer: descobrira o tempo de ela falar, o respirar dela, o sonhar dela. descobrira no rosto dela, o bicho que agora a protegia abençoava e a quem ele rezava — o seu animal-deus-da-guarda.

mas portugueses, espanhóis ou outros nada haviam descoberto: conhecido, sim! como ela, que antes não conhecia gentes de olhos, como de pés, grandes!

3.

do fundo de mim falo.

sou uma casa de fés antigas, hieraticamente erigida em frente a esse porto.

vi-a chegar, sorridente, tão sorrisonha que quase cerrava, de todo, os olhos (só Gil E. da Silva achava que ela sorria pouco…); sorridente, como só os olhos orientais sabem, pequenos, enrugando-se na sabedoria serena, sorriso interior. vi-a chegar. dos Orientes.

guardei-lhe sempre os passos. estimei-a. conservei-lhe o sorriso e o Mestre. ela, ao dedicar-lhe o amor, conservou-lhe o nome: Suyshiamara Maria E. da Silva

hoje, do dentro de mim falo.

no mais fundo de mim estão as madeiras de Gil da Silva. caravela modesta que apodreceu e acolhi no sopé de mim mesmo — a essa matéria primeiro, castanha, cinzenta depois, meio podre.

e as almas.

reclamada pelos deuses-coisas de minhas arcadas.

ouvi dizer — a quem terá sido? — que é esta a razão de me chamar mosteiro; não sei. nem sei se um Mosteiro se deixa ficar ao pó e ao vento e ao tempo, resistindo ao sono, ao apelo — legítimo na minha idade, não? — do deitar-se e dormir. resistindo, imponente, de pé, sem que lhe dediquem um pouco de amor.

de cada vez que as novas pedras — menos serenas: mais comerciais, mais políticas — me crescem à roda e que o mar parece recuar de mim, pergunto-me se serei mesmo um Mosteiro.

que um Mosteiro fez-se para ser amado monumentalmente, na brutal humildade das nossas arrogantes memórias: a comoção face ao Tempo!

por isso, no mais íntimo do meu dentro, há uns que se revolvem: mal finados, incomodados, traídos, esquecidos…

neste tempo de roufenhos hinos a heróis conquistadores, malvados, mal-amados, dos hinos dos de cá de cima, dos de lá de fora, dos que lhes sentem o cheiro da conquista.

e os conquistados, bem como eu, aguardamos pacientemente por novos tempos de curiosos amantes, de ternurentos homens, os que me hão-de renascer na paz, brancura da pedra.

pacientemente impacientes por um novo renascimento que se seguirá a esta idadezinha média das vossas vidinhas de portugueses no portugalito.

Maria Toscano, (escrito em: Lisboa, Campo de Ourique, Café-Pastelaria A Tentadora, 2 Agosto / 1992) In Retratos. com mulher, homem, mar, pele e gato e tudo. 17 textos lisos. livro inédito.

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Maria (de Fátima C.) Toscano, Doutora em Sociologia. Docente Universitária, Investigadora e Formadora. Coach e Trainer em Programação Neurolinguística. Para visão da sua obra poética, desde 1975, ver o Tomo da Revista Triplov (Outubro/2025).