MUNDOS DAQUI E D´ALÉM (III). O VASO PRECIOSO MUITO VALIOSO – por Adelina Andrês

 

MUNDOS DAQUI E D´ALÉM (III). O VASO PRECIOSO MUITO VALIOSO (I)

O VASO PRECIOSO MUITO VALIOSO

(Primeira Parte)

Às vezes a Lua, lá no céu, não se vê logo porque é nova. É Lua nova não se vê. Mas está lá na sua límpida invisível transparência. Veem-se as estrelas tantas tantas longe tão longe e algumas tão mais longe e tão mais longe ainda que são só pequenos pontinhos pequeninos de luz que se sabe forte a luzir a tremeluzir a brilhar. E algumas outras são de tão mais longe ainda que só sabemos que lá estão, e pronto. Porque estão tão mais longe e mais longe ainda e ainda e ainda que só se pode é acreditar. E pronto! São como a Lua nova. Não se vê, e está lá, e acredita-se! E pronto.

E mais perto do que as estrelas todas – as de cá mais pertinho e mesmo o Sol – está a Lua que o Sol ilumina e que é vizinha e companheira do Mar. A Lua e o Mar vivem juntinhos, e enrolam e encolhem para se alargarem depois, e misturam-se e fazem luas e marés de movimento a sério e para brincar. A Lua e o Mar moram num vaso lindo pequeno grande a mexer lá dentro de conteúdo às vezes escondido de água salgada e de luz, à espera de vida para despontar fervilhar crescer florir sair e iluminar.

E quem tem mexe remexe espreita observa toca e brinca e segura nesse lindo vaso precioso muito valioso é uma menina uma menina já senhora que é Maria. Que assim se chama: Maria.

Maria e o lindo vaso precioso muito valioso, a Lua e o Mar nunca se separam. Ela guarda este vaso sempre sempre consigo, seguro amparado abraçado ao seu corpo. No seu corpo. E vivem os três sempre assim, abraçados a brincar e à espera de deixar fecundar para fazer nascer e crescer. E para deixar depois soltar. Para soltar os passos para os caminhos de ser preciso andar percorrer vidas coisas de voar outras coisas lindas de mostrar.

E esperam… esperam…

Um dia, lá longe a aproximar-se no céu, uma pomba branca surge rápido num rodopio voa voa sempre em espiral por entre as estrelas todas – as que se veem muito, as que são só pontinhos de luz pequeninos fortes, e aquelas que só sabemos que lá estão, e pronto. Porque estão lá tão longe… Mas a pomba branca vê-se sempre! Sempre!… Vê-se no meio das estrelas todas as de muito longe e as de muito mais longe e as de tão longe imenso… vê-se sempre no seu voo rodopio umas vezes rápido outras vezes lento calmo tranquilo na espiral que envolve as estrelas todas dos mundos e as galáxias todas todas e outras tantas tantas imensas.

Lá vem ela! Lá vem ela! Voa veloz na direção do lindo vaso precioso muito valioso da Maria que tem o conteúdo da Lua e do Mar … E é ali, naquele vaso, que se inicia e que também termina a espiral que é o caminho de voar da pomba branca… Agora, o lindo vaso precioso muito valioso da Maria que tem a Lua e o Mar é o fim e é o princípio da espiral do voo que é o caminho da pomba branca…

Graça – que é a sua graça o seu nome como os que a conhecem lhe chamam – traz uma coisinha pequenina uma esferinha uma bolinha uma sementinha no bico de oferecer ofertar agraciar…

Maria está muito contente muito mais do que habitualmente – e não está nada surpreendida!… Há já tempo tempo que ela sabe e espera, com o seu lindo vaso precioso muito valioso, a visita daquela Graça pomba branca…

Quando a espiral do voo de Graça a pomba branca coincide e é envolvida completamente pela forma espiralada do vaso de Maria, aquela Graça – com todo o amor dos mundos todos e de todos os todos mais imensos ainda do que isso, e com muito cuidado – deposita aí a sementinha de germinar.

Com o bico já livre daquela carguinha tão mas tão tão preciosa tão valiosa!!…, Graça a pomba branca, naquele sítio da espiral de brilho e luz que fica pertinho da abertura do vaso lindo precioso valioso da Maria, diz assim:

– Olá avé bom dia Maria! Tu és a menina já senhora menina a quem foi dada esta sementinha para o teu lindo vaso precioso muito valioso de água salgada do Mar e da luz crescente da Lua. Sei que vais cuidar muito bem dela e fazê-la crescer e soltar. Nessa altura que será o Natal de nascer, voltarei virei ter contigo outra vez pela espiral a voar. Até lá avé bom dia Maria!

O Mar e a Lua estão felizes felizes felicíssimos, porque aquela sementinha companheira era tão esperada tão intensa e pacientemente esperada como o tamanho do Mar quando está tamanha maré cheia que já não pode não pode mais e até quer precisa extravasar… A Lua paciente já cansou da paciência daquela invisível transparência de se esconder de ser lua nova de não se poder mostrar e iluminar… quer ser crescente crescente para se poder ver maior maior e mostrar e iluminar!

Aquela sementinha é um pontinho tão pequenino tão pequenino de tamanho que nunca se poderia ver por causa disso mas, como brilha tão intensamente de luz e de força que só as coisas vivas grandes podem ter, vê-se logo logo – como Graça a pomba branca que, mesmo tão longe como as estrelas mais longínquas que não se veem, esta pomba sempre sempre se vê…

E, logo que aquele lindo vaso precioso muito valioso recebe a tal sementinha tão forte de brilho e de luz, logo a Lua se acende, e agora já se vê iluminada lá no céu… mas, como a sementinha tem um tamanho de medir ainda tão pequenino, a Lua não se acende toda, só um bocadinho pequenino. As pessoas dizem:

– Olha a Lua! Que bonita! Está em quarto crescente…

… crescente porque, nela e no Mar, a sementinha que ainda é tão pequenina, está a crescer… O quarto crescente começa por ser um desenho fininho de luz que, à medida que a sementinha cresce, se vai ampliando ampliando ficando cada vez maior e cada vez maior…

E, agora, já são quatro sempre a brincar: Maria menina já senhora menina e, no seu lindo vaso precioso muito valioso de estimar, a Lua, o Mar, e a sementinha de crescer transformar. E, afinal, são cinco para melhor contar – o número e a história – é que falta um senhor carpinteiro, o marido José para ajudar proteger e carpinteirar. José fez uma casa madeira abrigo para todos, com uma claraboia redonda no teto no ar. Para ir olhando a Lua, que se está sempre a transformar…

Cá dentro do lindo vaso precioso muito valioso, todos os momentos dos dias tempos a decorrer sem correr com pressas são uma animação. Porque tudo está vivo tudo é vida tudo é uma animação… A Lua ilumina cada vez mais espaço e obriga o Mar a andar sempre em movimento maré alta maré vaza maré alta maré vaza maré alta… a sementinha de transformar já transformada é menino de reboliço brincalhão de vida de animação – levanta e abana a cabeça, chupa o polegar, acotovela a Lua, chapinha com as mãos e os pés na água salgada e morna do Mar… e ri ri ri!… Ri de gosto da vida da Lua e do Mar, cá de dentro do lindo vaso precioso muito valioso da mãe Maria menina já senhora menina.

Cá de dentro, o vaso vai crescendo cresce cresce daquela vida a caber a ampliar a mexer a remexer a crescer a viver. Lá de fora, aquele vaso arredonda e incha, incha, porque a Lua, lá no céu, vai inchando também. Mas a Lua não incha de vaidade e de orgulho engodo engulho. Não! Não!! A Lua mostra, cada vez mais, a luz que recebe, e mostra-se mais cada vez mais lá no céu do mundo. Está, a cada tempo, mais perto do tempo de ser Lua cheia…

Maria, que tem o vaso tão perto junto dentro de si e que vê cá de dentro e lá de fora, sabe dessas coisas dos tempos da Lua. E José vê, também, que a Lua quer mostrar-se toda ao mundo, e adivinha que o Mar precisa extravasar…

Por isso, quando um dia nesses dias de quase quase lua cheia foi preciso partir a sua casa madeira abrigo fugir para lá para fora para lugares outros desconhecidos desabrigados perseguidos, José ficou preocupado algo muito se calhar até desesperado tanto tanto. Mas o abrigo era ele porque ele José é madeira boa de carpinteirar fazer construir abrigar outros a ele e à Maria mãe menina e ao vaso do Menino, da Lua e do Mar. Que é tudo que são todos tudo tudo. Lá foram fugiram num burrito a calcorrear…

Chegaram cansados exaustos mas sãos e salvos à noite a Belém. Ai o desespero o desespero que nem um quartito havia para abrigar. Para abrigar descansar daquela canseira daquela fuga do medo do terror da menina mãe e do lindo vaso precioso muito valioso que lhes queriam roubar.

– Nesta estalagem está cá gente naquela estalagem está lá gente e na outra está também!…

– Vamos! Vamos para onde não está ninguém…!!…

E lá foram procurar no tal burrito a calcorrear… Enquanto se iam afastando do sítio das casas, ouviram pessoas a dizer:

– Olha, é noite de Lua Cheia!…

(continua no próximo número)

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Adelina Maria Granado Andrês nasceu no norte do país e aí vive,  em vizinhança próxima com o mar de Gaia e pelo interior transmontano. É docente do ISCAP-P.Porto. Os seus interesses focam-se no pensamento e na obra de Agostinho da Silva e para além do ensaio, dedica-se a outros tipos de escrita, sendo autora de livros infantojuvenis, poesia e prosa poética.