20 DE DEZEMBRO DE 1975- por Francisco Fuchs

 

Yvonne Daumerie (fevereiro de 1927)

Para Yvonne Daumerie

Retornei à Guanabara em meados de 1971, pouco antes de completar dez anos de idade, pois Alípio Ramos, o homem que se tornou meu pai, levou-me para morar com ele quando perdi minha mãe. Foi então que conheci sua esposa, Dona Yvonne, que passei a chamar de madrinha, e a mãe dela, Madame Jeanne, que viria a falecer quase nonagenária. Fui alojado no quarto junto à escada. Nele havia, a um lado, uma varanda com duas poltronas brancas de ferro e um pequeno cômodo anexo onde livros assentavam em brancas estantes de madeira; do lado oposto, dois degraus conduziam a um minúsculo lavabo. Da varanda enxergava-se um bom pedaço do Aterro e do mar, vista que foi minguando até desaparecer por completo atrás dos edifícios que o milagre econômico foi erguendo na praia do Flamengo.

Jamais vi minha madrinha fazer uma única menção a suas glórias passadas. Se não fosse pelo meu pai, que de forma lacônica mencionou seu nome artístico e sua carreira pregressa de violonista e cantora, eu teria permanecido sem saber. Essa revelação ganharia corpo depois, quando descobri no quarto do meio, que pertencera a Madame Jeanne, uma singular discoteca. A estante da vitrola abrigava, em sua parte inferior, duas grandes fileiras de discos de 78 rotações que eram diferentes de tudo que vira antes. Seus selos eram escritos à mão, e não impressos numa gráfica; entre eles havia discos de metal e até algumas matrizes virgens. Não eram discos comuns, que qualquer um compra na loja da esquina. Eram os discos dela.

Yvonne Stumpe Ramos nunca fez segredo, ao menos entre nós, de que havia nascido em Bremen. A observância dos modos à mesa era estrita e inegociável; um prato de sopa antecedia o jantar, não raro servido com purê de maçã, e os guardanapos eram apresentados em argolas de prata, cada qual diferente da outra, que portavam as iniciais de antepassados. Fui designado para aliviar Iracema, que lá trabalhava há muitos anos, da tarefa de polir a prataria, serviço que já me acostumara a fazer na casa de minha mãe. Posteriormente, quando Janine, filha única de Yvonne e mãe de suas netas Gisele e Daniele, adivinhou meu talento para fazer pulseiras de miçangas, ajudei no orçamento doméstico enquanto a moda durou, conseguindo também dinheiro suficiente para comprar na Mesbla do Passeio meu primeiro LP, a trilha sonora do filme More.

No primeiro carnaval, em 1972, fui mandado para uma colônia de férias da ACM em Araras. Para mim, que passara a infância praticamente recluso, lendo e vendo TV, era uma experiência inteiramente nova. Lembro-me de descer as trilhas de pedra no meio do mato usando o sombrero de palha que meu pai me deu para proteger-me do sol; livre, alegre e selvagem, eu brandia o chapelão e embaralhava latinidades ao cantar, a plenos pulmões, o refrão do tango em que Gardel declara seu amor a Buenos Aires.

Os três carnavais seguintes não foram menos extraordinários, pois passei a acompanhar a família nas viagens a um sítio de amigos em Pedro do Rio. Na primeira delas meu pai ainda era vivo, e mostrou-me os ipês roxos e amarelos que colorem a Serra de Petrópolis. O foco intenso do sítio era o boliche, território de João Juginho (como Yvonne o chamava), onde também havia uma mesa de bilhar, uma bateria e um som fenomenal. Jamais me esqueci do dia em que ele pôs no toca-discos The Lamb Lies Down on Broadway, que eu já conhecia e adorava, e que, naquela aparelhagem de som, parecia revelar todos os seus segredos. Foi no sítio que eu, desafiadoramente, pedi uma manga e um copo de leite; foi nele que meu pai ensinou-me a jogar bilhar; e foi lá que vi João conversando e fumando com seus amigos cabeludos.

Se bem me lembro, foi apenas em 1975, depois de um extenso e pesaroso período de luto pela morte do marido, que minha madrinha voltou a passear. Fomos ver o Holiday on Ice, mas eu nem desconfiava que ela também fora, quando jovem, coreógrafa e professora de dança, e muito menos que havia sido a única bailarina da Semana de 22. É bem verdade que, antes disso, talvez no início de 1974, fomos assistir à nova versão de Horizonte Perdido; mas tão logo o filme terminou, percebi que o havíamos visto para maturar nosso luto, e não para nos distrair dele. Ela sabia que meu pai gostava de levar-me ao cinema, mas provavelmente ignorava que durante as férias escolares eu assistia religiosamente, na pequena televisão do meu quarto, a todos os filmes da sessão vespertina, como Le Roi de Coeur e tantos outros, anotando em letra miúda, para não esquecê-los, os nomes dos mais marcantes.

Três violões repousavam sobre o tapete da sala de estar, apoiados num curvilíneo divã de madeira e palhinha que somente a eles pertencia. Lá minha madrinha dava aulas particulares de inglês, francês e violão, e tinha muitos alunos. De vez em quando, ao escutar meus discos de rock progressivo, eu me excedia no volume e atrapalhava suas lições, mas uma breve reprimenda fazia-me prestamente adaptar meu entusiasmo a níveis sonoros toleráveis. Faz tempo que compreendi que a música salvou-me a vida, pois foi a principal responsável por mostrar-me, nessa época de perdas sucessivas, que a beleza existe. Não tenho como saber quantos daqueles meus discos Yvonne chegou a curtir, mas é bastante óbvio que gostou de alguns, pois se não fossem minhas audições no quarto da vitrola, ela jamais teria me convidado para assistir, em dezembro de 1975, ao primeiro show de Rick Wakeman no Maracanãzinho.

Teria sido aquele evento uma despedida? No início do ano seguinte deixei de morar com minha madrinha por decisão de sua filha Janine; talvez preocupada com a perspectiva de ter de assumir minha guarda em algum ponto do futuro, ela resolveu que eu teria de seguir meu caminho. Passei da nobreza à pobreza num piscar de olhos, e foi a melhor coisa que podia me acontecer. Consegui eu mesmo meu primeiro emprego logo após completar 15 anos, e aos 16 já morava sozinho. Hoje moram todos na minha lembrança: Janine e Geraldo, Gisele e Daniele, Iracema e sua filha, e também o texano Donald, nosso querido vizinho de porta; acima de todos, é claro, estão meu pai Alípio e Dona Yvonne, que me acolheram e cuidaram. E a criança que fui se sentirá cada vez mais surpresa e feliz por ter alegrado e emocionado a madrinha, na derradeira etapa de sua existência tão repleta de arte, com um bocado daquela que salvou minha própria vida.

♦♦♦

Francisco Traverso Fuchs é pesquisador independente, com formação em História e Filosofia. Escreveu recentemente o artigo Os nomes de Yvonne Daumerie e faria muito gosto em finalmente ouvir os discos que sua madrinha gravou.