NEM TODAS AS CIDADES SÃO DE PEDRA-Texto, poema e imagens de Nelson González Leal

TEXTO, POEMA E IMAGENS DE
Nelson González Leal

A cidade, quando feita de homem, língua e mulher, não fica só no osso. Não, ela é músculo e alma, excitáveis e contráteis, é porém uma especie de coração que se agita dentro de você a toda vez que andas na rua. A cidade é um refugio da memória onde o esquecer tem patente e permisão. É talves um caos, na verdade é o caos mesmo, uma mixtura de referentes, um espaço construido para que o amor e o desamor possan ter inumeras motivações para o combate e para a palavra que se faz cavalgadura de seus propósitos -sem a língua para nomear não existe o amor, não existe o desamor, também não o silêncio, não há projeto. A cidade feita de homem, língua e mulher, é o descalabro e ao mesmo instante a redenção. Mas lembre-se que é so isso quando é feita assim. Se for só pedra sobre pedra pode ficar núa e perecer diante o silêncio e o frio, pode sim ficar no osso, o nosso, e pesar como a laje de um túmulo para a qual ninguém registrou palavras nem memórias, que ainda não é uma lápide.

A cidade foi e ainda é em mi a epifania. De lá vem esse trabalho fotográfico, esse olhar a cidade além dos cantos, no centro caótico da gente, no acontecer trémulo de seus dias fevrieis e da sua língua fundadora e harmoniosa. A cidade é poema e  imagem no meu trânsito. É assim porque

Nem todas as cidades são de pedra
Alguas têm filhos de sangue
jardins de abóboras
casas de luz

Ruas que tremem na hora dos sonhos
tremem de amor e calam
Sempre que você transita nelas
ficam quetinhas
apenas sussurram
e olham de perto seus dias
—mas você não percebe—

Você quase nunca percebe
que nem todas as cidades são de pedra
que algumas são feitas de coração
e batem quando você vai embora.

Fechando o poema vem uma explicação talvez desnecessária: o trabalho Nem todas as cidades são de pedra, as fotos sobretudo, aconteceu quando fiquei sabendo que tinha que deixar Brasília, ir embora após seis anos de morar lá. É, então, uma espécie de homenagem à cidade que me acolheu com avidez e loucura, ainda que sempre com um toque de bom senso para me fazer comprendê-la. O mesmo toque que eu dei para ela desde a minha própria avidez e o meu próprio delírio. Só espero que ela me tenha comprendido também. Para olhar o trabalho na íntegra pode fazer click no link: https://nelsongonzalezleal.wordpress.com/2017/12/03/nem-todas-as-cidades-sao-de-pedra/ As imagens de Nem todas as cidades são de pedra, aliás, são feitas no filme Fuji Superia 200, com a técnica da dupla exposição e em duas cámeras, a Canon Demi e a Petri FT 500.

♦♦♦

Nelson González Leal,  Fotógrafo e escritor, nasceu  e mora na Venezuela.  Tem trabalhado como fotojornalista freelancer e se dedica à fotografía de rua. Como escritor, publicou 7 livros (1 de poesia, 3 de relatos, 1 romance, 1 ensaio político y 1 livro de fotografias),  publicados entre à Venezuela, à Argentina e à Espanha.

Em 1993 ganhou o primeiro prêmio no concurso de relatos mais importante em seu país natal, o de o jornal El Nacional.

Tem um livro de fotografías publicado na Argentina (cujo tema, aliás, é o Brasil e seu ritmo) e algumas exposições no Brasil e na Venezuela.

A verdade é que Nelson González Leal é, simplesmente, um homem que gosta de observar e transmitir o que ele ve, através da palabra e  da  e da imagem visual,. Considera que não pode, nem será mais, chamado de “diplomata”, apesar de ter vivido durante 6 anos praticando este papel na Embaixada da Venezuela em Brasília, porque não acredita na veracidade deste meio, nem se identifica com as suas ciladas.

Nelson González Leal es, em suma só um homem que gosta da fotografía e da literatura, da rua e de o bom café. É alguém que documenta a vida que o rodeia.

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